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Alugam-se Reticências

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Os sapatinhos de cristais de Amanda

O armário da mãe da menina de apenas três de idade não era um portal para Nárnia, mas continha um mundo maravilhoso de sapatos. As prateleiras eram recheadas de variedades de calçados e a pequenina Amanda se interessava por aqueles mais altos. Ela amava brincar de boneca, mas a hora mais divertida era quando pegava os sapatos da mãe e saia desfilando pela casa toda! Era “toc toc” pra cá. “Toc toc” pra lá.

Quando recebia visitas, esperava cada uma delas se sentar no sofá. No momento em que as mulheres cruzaram as pernas e as sandálias ficavam a mostra era o momento de Amanda “atacar”. Ela fazia todas tirarem os sapatos para que pudesse experimentar e ver como ficavam nela.

– Amanda, você está fazendo aquilo de novo? perguntava a mãe de forma brava!

Mas ninguém ligava. Até riam da atitude da menina:

-Imagina! Deixa ela… Está uma graça com essas sandálias maiores que os pés.

A paixão de criança fez com que ela tentasse mais tarde a carreira de modelo e nos cursos de passarela aprendeu, de verdade, a andar de salto alto. Andava de um jeito tão elegante que até mesmo as princesas da Disney morreriam de inveja!

Depois de grande, o salto continuou sendo sua melhor companhia e a intimidade passou a ser tão grande que quando resolve compartilhar os momentos com a outra amiga, a sapatilha, tropeça e cai, algo que nunca fez com o salto!

Ultimamente, os dois dividem uma dupla jornada: de dia vão ao trabalho e a noite, principalmente aos finais de semana, se vestem de Cinderela para divertir e entreter milhares de crianças em suas festas de aniversário. Juntos conseguem levar à todas elas o principal objetivo da magia: tornar incrível o que os adultos banalizaram depois que o sino toca e informa que é meia-noite. Por isso, Amanda nunca desce do salto. Ela sempre será uma eterna criança.

-“Toc toc”…
– A Amanda e seu salto vem aí…

Foto: Kaline Barros
Foto: Kaline Barros

Vamos brincar de caquinhos?

Do interiorzão do Paraná, de uma cidade chamada Jaguapitã, a Dona Clarice e Seu João se mudaram com seus oito filhos para a Rua Boiadeiro, no município de Cruzeiro do Oeste, também no estado paranaense. Única menina entre tantos gurizinhos, Aparecida Antonia, mais conhecida como Cida, era pra lá de espevitada e quando não estava atormentando seus irmãos (ou cuidando deles) arranjava formas diferentes de se divertir. Como a família era pobre e as crianças não tinham brinquedo, a pequenina aproveitava os cacos de vidro das louças que espatifavam no chão para brincar.

–  Vamos brincar de caquinho?

Às vezes, partes inteirinhas sobravam dos cacos e os olhos da menina se enchiam de brilho. Quando ela tinha um cabinho de xícara inteiro, nossa! Era uma raridade! Quando tinha uma florzinha então, achava o máximo!

Um dos lugares que Cida mais brincava era no cemitério desativado da cidade. A mãe dela pediu autorização para a prefeitura para poder plantar lá no terreno. E enquanto a mãe plantava as frutas e verduras, a menina brincava próximo a uma árvore giganteeesca!  Quando ajudava a mãe e os irmãos Zé Antônio, Barto e Jango na colheita, a menina levava alguns sustos.

-Mãe, isso aqui é um crânio?

– E isso aqui, mãe? Parece um fêmur… eca!

Quando a noite caia, Cida pegava seus caquinhos e ajudava seus irmãos a carregar as ferramentas do trabalho para casa. A rua era um breu só e na casa onde moravam só tinha lamparina. Eles também não tinham condições de ter água encanada, só havia  um poço para sustentá-los. Mas sempre souberam se virar muito bem com as coisas que tinham.

Assim, a menina continuou disseminando sua humildade para todos ao seu redor e transformando pequenas descobertas em grandes tesouros. Não dizem que filho de peixe, peixinho é?! Há muito dela em mim, afinal, ela é minha mãe e me ensinou que é juntando cacos que boas histórias e boas lembranças são construídas!

Foto: Kaline Barros
Foto: Kaline Barros

As primeiras reticências

As paredes grossas de uma das salas da Maternidade Santa Catarina, na Paulista, não conseguiram abafar o choro estridente de uma menina que, bem na hora do almoço, resolveu dar as caras ao mundo. A mãe – suada, ensanguenta, cheia de dor – a colocou em seus braços, sorriu com os olhos e falou – num tom em que médicos, enfermeiras e todos que estavam ali conseguissem ouvir-:

– Que bostinha de grilo!

Era uma menina de 47 centímetros e 3,300 kg, tão pequena como… uma bostinha de grilo! Mas havia nascido com um nome, escolhido antes, muito antes daquele 23 de Maio de 1991.

Certo dia, Aparecida Antonia (a mãe) passeava pela rua, rumo ao trabalho. De repente, encontrou na calçada um frasco colorido e cheio de flores. Curiosa que só, a mulher não se contentou em ver, mas pegou o recipiente e viu que se tratava, afinal, de um perfume francês. Leu em voz alta e devagar, quase como se quisesse soletrar a palavra:

– KA – LI – NE!

No mesmo instante, sorriu e guardou o nome em sua cabeça. Quando se encontrou com Joaquim (o namorado) contou o ocorrido e disse:

– Eu quero que nossa filha tenha esse nome!

Kaline passou a ser sinônimo de juras de amor, promessas e até pedidos de desculpas:

– Eu te amo tanto quanto amarei Kaline um dia.
– Juro ser um homem melhor em nome da Kaline!
– Me perdoa pelo amor que temos pela Kaline...

Antes de Kaline veio Rafael, com seus pais há 5 anos casados. Aos quatro, Rafa soube que a mãe estava grávida de uma menina que o levou a dar pulos de alegria:

– A Kaline vem aí! A Kaline vem aí.

E veio. Para mostrar que toda história é uma maneira de tornar um momento eterno e que até mesmo uma simples bostinha de grilo pode ser importante para o mundo de alguém. Como todos nós somos!

– Prazer, KA-LI-NE e eu quero contar mais das suas reticências.

Uma das cartas escritas de Joaquim para Aparecida. Ano: 78
1978: Um dos inúmeros cartões de Joaquim enviados para Aparecida

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