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A gaita, a família e o João

Fotos: Kaline Barros
Fotos: Kaline Barros

Antes do sol nascer, do galo cantar e dos “mininos” despertarem para irem à escola, João acordava. Pegava seu chapéu, sua enxada e ia “trabaiá” na roça. O homem plantava de tudo naquelas “terras toda”: arroz, feijão, “argodão” e “inté” café.

De vez em quando, João pegava escondido a gaita dele e começava a assoprar algumas músicas que ele mesmo inventava. Era um momento de muito alegria, “inté” os passarinhos cantavam junto de tão alegres que os bichinhos ficavam. Era uma alegria contagiante que só!

João morava no meio do mato, mas não era um homem bestado não, era inteligente e carregava nas mãos, nos ombros, na barriga, nas pernas e nos pés muita valentia. Um dia, até se encontrou com a Mula sem cabeça e colocou a bichinha pra correr. Foi um feito danado!

Ajudou sua “muié” Clarice a criar os oito filhos e que ganharam de presente nomes bonitos que só. Foi Zé Antônio, Bartolomeu, João Batista, Francisco, Luiz Carlos, Adson, Moacir e Aparecida Antonia. Depois que saíram do mato, lá do interior do Paraná, vieram pra “Sum Paulo” e ainda sobrou um tempinho pra fazer mais uma “fiá”, a Clarissa.

Depois dos filhos, vieram os netos e João ficava todo feliz e orgulhoso! De vez em quando, quase sempre e a todo o momento, os netos faziam uma bagunça que só na casa do vô, e João, muito do esperto, sabia o jeito que os acalmaria. Tocava gaita.

Os anos foram passando, as artrites, artroses e outras ites foram aparecendo, mas João continuava firme, forte e valente. Um dia, porém, perdeu a gaita. Não sabia onde havia colocado. Ficou um bom tempo sem tocá-la.

Em uma conversa com Aparecida Antonia, João “recramou” da “farta” que sentia de tocar gaita, não só por causa do instrumento, mas das histórias que ela trazia de volta a ele. Da roça, das “prantações”, dos bichinhos cantando…

No aniversário dele de 85 anos, João recebeu uma caixinha pequena de uma de suas netas.

– Ara, menina. O que é isso?

– Abre, vô! Espero que goste.

Abriu. E lá dentro tinha uma gaita.

– Será que ainda sei como toca?

– Claro que sabe, vô, e se não souber, aprende de novo!

Durante a festa, João não parou de tocar. Alegrou netos, netas, bisnetos, bisnetas, filhos, filhas, os cachorros, os gatos, os vizinhos e até a “muié” Clarice que sempre reclamara daquele som. O que Clarice não sabia é que João tocava em agradecimento a Deus por ser um homem melhor graças à família que tinha. Independente do que teve ou do que não teve na vida, João sempre soube o verdadeiro significado do amor, que é conjugado por meio de suas histórias que, até hoje, impressionam os olhos de sua neta. Que até hoje, me impressionam.

O abc do amor de Khadija

É tarde. O sol já está se pondo próximo aos braços do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e em uma das inúmeras salas das milhares de casas de Xerém é o silêncio que reina durante alguns segundos. Na televisão está Olga. Olga Benário. No sofá, acompanhando os passos da personagem, estão os olhos arregalados e concentrados de Khadija, que imita cada movimento e que sabe de cor cada fala:

– Se eu cair, eu não vou chorar!

Ao seu lado, está sua mãe Dayse que, imediatamente, posta em sua página no Facebook:

– Khadija está mais uma vez vendo ao filme de Olga. Hoje é um dia bom!

Há alguns anos, Dayse percebeu alguns comportamentos fora do comum em sua filha e achou estranho que com três anos de idade Khadija não havia pronunciado nenhuma palavra. Foi quando decidiu levá-la ao médico e…

– Sinto muito, mãe, mas sua filha tem autismo. Já se prepare, porque as tarefas de ler e escrever serão muito difíceis nessas circunstâncias.

Mas não para Dayse que, depois de alguns anos, colocou Khadija em uma escola especial com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar. Quando chegava em casa, Khadija se sentava com a mãe e juntas realizavam alguns exercícios para o desenvolvimento da escrita.

– Vamos lá, filha… Nós vamos conseguir!

Dayse fazia letras com animais que correspondessem à escrita e, dia após dia, passava três horas fazendo o mesmo exercício. Durante o processo, fez questão de procurar em blogs, palestras e em conselhos de profissionais as milhares de dúvidas que não saiam de sua cabeça. Se não bastasse isso, ainda fez um blog para compartilhar o cotidiano das duas com outras mães e famílias que passavam pela mesma situação.

Até que certo dia, Dayse entrou no quarto e se emocionou. Era como se um filme com todas as consultas médicas com diagnósticos ruins passassem por sua cabeça. Naquele dia, Khadija estava sentada na cama da mãe com uma edição da revista Superinteressante e… lendo. A leitura não era perfeita, mas a menina só tinha seis de idade e conseguiu tamanha façanha depois de um tratamento intensivo de apenas UM mês.

Depois da primeira leitura não parou mais. Seu passatempo predileto até hoje é ler os gibis da Turma da Mônica e o Cebolinha, ah o Cebolinha, é seu personagem favolito. Tem até um boneco em casa! E seu “paidrasto” fez questão de assinar os gibis no nome de Khadija. Ela se sente toda vez que recebe a correspondência! Lê tudinho e se diverte sozinha lendo…

Com 12 anos, ela domina uma linguagem universal e quase que esquecida: a do amor. É com beijos e abraços que pede à Dayse tudo o que deseja, inclusive o filme de Olga, porque mesmo se houver dias ruins, Khadija vai cair, mas não vai chorar.

“Eu tenho autismo. Eu não sou somente “Autista”. O meu autismo é só um aspecto do meu caráter. Não me define como pessoa”.
“Eu tenho autismo. Eu não sou somente Autista. O meu autismo é só um aspecto do meu caráter. Não me define como pessoa” (Autor desconhecido)

A conjugação do amor

Assinado: Do teu pai imperfeito, Wiliam.

É assim que ele costuma assinar as mensagens que publica para seu filho Guilherme, em uma página dedicada a ele no Facebook.

Força, Gui é o que todos costumavam dizer para o ainda menino de 21 anos que lutava, mais uma vez, contra um câncer. Mas Guilherme era forte, não gostava de falar com ninguém sobre a doença e quando perguntavam como estava, só abria um sorriso de ponta a ponta respondendo:

– Estou bem!

Era o filho e melhor amigo de Wiliam. Foi o pai que o ensinou a nadar, a jogar bola, a gostar de música pura e até a difícil tarefa de decorar a tabuada.

Quando foi diagnosticado, seus pais insistiam em falar que…

– Agora tudo será conjugado na primeira pessoa do plural. Nós estamos com câncer. Nós vamos lutar contra ele. E nós vamos vencê-lo!

Enquanto os três (pais e filho) ficavam internados no hospital, a página na rede social era preenchida com mensagens de amor, de orações e de uma esperança nunca ainda vista em um lugar virtual.

Um dia, Wiliam e Guilherme perceberam que muitos parentes das pessoas que ficavam internadas no hospital não tinham onde ficar. Muitos acompanhantes esperavam o tratamento sentados nas calçadas e nas cadeiras das salas de espera. Foi então que os dois tiveram uma ideia:

-Vamos montar um instituto para abrigar, de graça, cada uma dessas pessoas.

Depois de alguns meses, a música de Guilherme estava a ponto de terminar. Ele fez o pai jurar que o projeto sairia do papel…

– Nosso sonho vai virar realidade, filho.

Aquelas seriam as últimas palavras que Gui ouviria antes de descansar.

Com toda a força do mundo, Wiliam compartilhou com todos no “Força Gui” a triste notícia. Não teve um que não se emocionasse com a garra tão grande do pai. Todos, naquele momento, também conjugavam o verbo amar na primeira pessoa do plural.

– Não te tenho aqui fisicamente, meu filho, mas te abraço com o coração e em todas as orações que faço peço para Deus nos proteger até o nosso reencontro. E ah, meu filho! Nosso sonho virou realidade. O Instituto Força Gui já atendeu mais de 150 pessoas e não param de chegar voluntários para nos ajudar. Ainda sou um pai imperfeito, só não fui mais, porque você me ensinou muito. Me ensinou como bem sofrer e como viver com alegria independente de qualquer sofrimento. Nossa música nunca vai parar de tocar. Nós vencemos. Obrigado! Assinado: Do teu pai imperfeito.

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Foto: Arquivo pessoal

Vidas cruzadas

Ela era um ser vivo frágil que passava por “maus bocados”. Ele era um ser vivo frágil e que também passava por “maus bocados”. Ela estava cansada da vida que levava no trabalho, do assédio moral que vivia e do trabalhão que um relacionamento estava dando na época; era tudo muito complicado. Ele estava cansado de ser abandonado e de andar por aí sem destino, também dava um trabalhão danado procurar, toda noite, um lugar para se esconder do frio; era tudo tão solitário. Até que um dia ela se perdeu dela mesmo. Decidiu largar emprego, namorado e resolveu mudar. Até que um dia ele ficou com vontade de andar quilômetros de distância. Decidiu que merecia um lugar, de verdade, para se habitar e resolveu seguir em frente… e em frente… e em frente.

Ela chegou a se perguntar várias vezes, “O que estou fazendo da minha vida?” Ele não conseguia pensar em nada, só andava cada vez mais em frente. Até que, de repente, ela decidiu fazer algo que poderia curá-la de toda aquela angústia. O tratamento não seria realizado por médicos, remédios e muito menos por outros meios alternativos, mas com amor. Com muito amor. Até que, de repente, ele encontrou um lugar que poderia ser a cura para suas dores, já que andou durante muito tempo. O tratamento não seria realizado por médicos, remédios e muito menos por outros meios alternativos, mas com amor. Com muito amor.

O Centro de Controle e de Zoonoses, de São Paulo, foi onde ela resolveu começar seu tratamento. Decidiu ser voluntária e ajudar a cuidar de animais resgatados das ruas, depois de serem abandonados. O Centro de Controle e de Zoonoses, de São Paulo, foi onde ele resolveu ficar para começar seu tratamento. Decidiu ser cachorro e ajudar a cuidar dos seres humanos machucados, depois de abandonarem seus sonhos.

No primeiro dia dela, ela passeou com um vira-lata com conjuntivite, medroso, mas extremamente carinhoso. No primeiro dia dele, ele passeou com uma menina com olhos brilhantes, medrosa, mas extremamente carinhosa. Se apaixonaram. Ela chegou a dizer em voz alta, “Bonitão, você tem cara de Billy”. Ele latiu como forma de aprovação, “Ei, eu gosto de ser chamado de Billy”.

Ela resolveu adotá-lo, mas como a casa que morava em São Paulo era pequena teria que levá-lo para o interior, na casa dos pais. Ele resolveu ser adotado. Estava feliz com a ideia de ter um lar de verdade e iria adorar morar no interior. Só que tinha um problema. Não tinha como levá-lo até lá. O táxi-dog ficaria muito caro; mil reais em apenas uma viagem. Então, ela teve uma ideia. Mandou e-mails para todas as ONG’s protetoras de animais que conhecia pedindo sugestões de como poderia obter a “grana” para levar o Billy até a casa dos pais. Uma das protetoras, Regiane, a presenteou com a rifa de uma cesta e que cesta! Se conseguisse vender tudo poderia levar Billy com o táxi e serem felizes para sempre. Em menos de dez dias, conseguiu vender “tudinho”, mas ainda assim o dinheiro não foi o suficiente.

Enquanto isso, Billy não deixava com que ela, a Juciara, perdesse a esperança. Um dia, ela conversou com um de seus amigos, o Marquinho, e contou sobre a situação. Para alegria de todos, ele falou, “Eu levo vocês. E de graça!”

Quando Juciara chegou na casa dos pais ficou aliviada, finalmente, Billy teria um lar. Quando Billy chegou na casa dos pais de Juciara ficou aliviado, finalmente, ele teria um lar de verdade. Onde Juciara ia, Billy ia atrás. Na cozinha, no quarto, no quintal e até no banheiro. “Billy, isso lá é hora de me seguir?”. Foi a partir daí que Billy ganhou um sobrenome. Era o Billy Chulé!

Como Juciara morava na capital teve que deixar Billy com os pais, mas sempre ia visitá-lo. O tratamento de amor estava fazendo um efeito tão grande, mas tão grande, que ela voltou a trabalhar, estudar e a se sentir muito mais forte. Enquanto ele se recuperava lá, ela se recuperava aqui.

Hoje, ela é um ser vivo forte que passa por bons momentos. Hoje, ele é um ser vivo forte e que também passa por bons momentos. Juntos eles perceberam que nunca estarão sozinhos. Juntos eles souberam que na vida, apesar de tudo, deve-se seguir em frente… e em frente… e em frente!

Juciara e Billy Chulé
Juciara e Billy Chulé

As primeiras reticências

As paredes grossas de uma das salas da Maternidade Santa Catarina, na Paulista, não conseguiram abafar o choro estridente de uma menina que, bem na hora do almoço, resolveu dar as caras ao mundo. A mãe – suada, ensanguenta, cheia de dor – a colocou em seus braços, sorriu com os olhos e falou – num tom em que médicos, enfermeiras e todos que estavam ali conseguissem ouvir-:

– Que bostinha de grilo!

Era uma menina de 47 centímetros e 3,300 kg, tão pequena como… uma bostinha de grilo! Mas havia nascido com um nome, escolhido antes, muito antes daquele 23 de Maio de 1991.

Certo dia, Aparecida Antonia (a mãe) passeava pela rua, rumo ao trabalho. De repente, encontrou na calçada um frasco colorido e cheio de flores. Curiosa que só, a mulher não se contentou em ver, mas pegou o recipiente e viu que se tratava, afinal, de um perfume francês. Leu em voz alta e devagar, quase como se quisesse soletrar a palavra:

– KA – LI – NE!

No mesmo instante, sorriu e guardou o nome em sua cabeça. Quando se encontrou com Joaquim (o namorado) contou o ocorrido e disse:

– Eu quero que nossa filha tenha esse nome!

Kaline passou a ser sinônimo de juras de amor, promessas e até pedidos de desculpas:

– Eu te amo tanto quanto amarei Kaline um dia.
– Juro ser um homem melhor em nome da Kaline!
– Me perdoa pelo amor que temos pela Kaline...

Antes de Kaline veio Rafael, com seus pais há 5 anos casados. Aos quatro, Rafa soube que a mãe estava grávida de uma menina que o levou a dar pulos de alegria:

– A Kaline vem aí! A Kaline vem aí.

E veio. Para mostrar que toda história é uma maneira de tornar um momento eterno e que até mesmo uma simples bostinha de grilo pode ser importante para o mundo de alguém. Como todos nós somos!

– Prazer, KA-LI-NE e eu quero contar mais das suas reticências.

Uma das cartas escritas de Joaquim para Aparecida. Ano: 78
1978: Um dos inúmeros cartões de Joaquim enviados para Aparecida

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