Eu ouvi feijoada?
Eu ouvi feijoada?

– Puxa saco, cururu! Puxa saco, cururu!

Esta é a frase predileta de Dona Maria*. Ela faz questão de repeti-la todas as vezes que muda de um cômodo para outro no lar de idosos que reside, em São Bernardo do Campo. Aproveita que é sábado para convidar todos os visitantes para uma feijoada.

– Sabe o que vai ter aqui hoje? Feijoada! Huuum…

Ali perto, deitada no sofá vendo ao programa “É de casa”, está Dona Dolores que se anima com a ideia da feijoada. Mas, num piscar de olhos, se entristece e conta aos visitantes que um de seus filhos havia morrido na noite anterior.

– Ah, mas ele está com Deus agora – tenta consolar uma das voluntárias.

– Com Deus ou com o Diabo! – fala rindo Dolores.

Da sala para a varanda e lá está Dona Marieta que não para de falar. A senhora, com seus 80 e tantos anos, vive um conflito pra lá de complexo.

– É verdadezinha ou mentirazinha? Bem, ô bem! Tô falando com você, presta atenção em mim. É verdadezinha ou mentirazinha?

Ao seu lado está a senhora Maia que reclama da fala incessante da colega. É japonesa e mora no Brasil há 50 anos, depois de fugir da guerra que assolava o seu país. Tenta, com dificuldade, pronunciar algumas palavras em português, mas o Alzheimer não a permite se lembrar de muitas frases.

– “No”, essa palavra “no” existe em “diaponês”.

Senhor Emílio, lúcido e morador por opção do lar de idosos, dá risada ao ver a cena. Ele tem medo de perder a vida para a doença que faz com que seres humanos se esqueçam de tudo o que já aprenderam e viveram. É um dos únicos na casa a se lembrar de cada pedacinho de sua vida e ajuda os demais a se lembrarem de quem são e, muitas vezes, do que esquecem que querem.

– O que vai ter hoje, Dona Maria?

– Hoje?! Aaaah, hoje tem feijoada! Puxa saco, cururu. Puxa saco,cururu!

E teve. Porém a feijoada dela, de Dona Maria, foi feita para lembrar ao mundo que excesso de lucidez também adoece.

*Todos os nomes são fictícios para preservar a imagem dos personagens retratados