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setembro 2015

A feijoada de Dona Maria

Eu ouvi feijoada?
Eu ouvi feijoada?

– Puxa saco, cururu! Puxa saco, cururu!

Esta é a frase predileta de Dona Maria*. Ela faz questão de repeti-la todas as vezes que muda de um cômodo para outro no lar de idosos que reside, em São Bernardo do Campo. Aproveita que é sábado para convidar todos os visitantes para uma feijoada.

– Sabe o que vai ter aqui hoje? Feijoada! Huuum…

Ali perto, deitada no sofá vendo ao programa “É de casa”, está Dona Dolores que se anima com a ideia da feijoada. Mas, num piscar de olhos, se entristece e conta aos visitantes que um de seus filhos havia morrido na noite anterior.

– Ah, mas ele está com Deus agora – tenta consolar uma das voluntárias.

– Com Deus ou com o Diabo! – fala rindo Dolores.

Da sala para a varanda e lá está Dona Marieta que não para de falar. A senhora, com seus 80 e tantos anos, vive um conflito pra lá de complexo.

– É verdadezinha ou mentirazinha? Bem, ô bem! Tô falando com você, presta atenção em mim. É verdadezinha ou mentirazinha?

Ao seu lado está a senhora Maia que reclama da fala incessante da colega. É japonesa e mora no Brasil há 50 anos, depois de fugir da guerra que assolava o seu país. Tenta, com dificuldade, pronunciar algumas palavras em português, mas o Alzheimer não a permite se lembrar de muitas frases.

– “No”, essa palavra “no” existe em “diaponês”.

Senhor Emílio, lúcido e morador por opção do lar de idosos, dá risada ao ver a cena. Ele tem medo de perder a vida para a doença que faz com que seres humanos se esqueçam de tudo o que já aprenderam e viveram. É um dos únicos na casa a se lembrar de cada pedacinho de sua vida e ajuda os demais a se lembrarem de quem são e, muitas vezes, do que esquecem que querem.

– O que vai ter hoje, Dona Maria?

– Hoje?! Aaaah, hoje tem feijoada! Puxa saco, cururu. Puxa saco,cururu!

E teve. Porém a feijoada dela, de Dona Maria, foi feita para lembrar ao mundo que excesso de lucidez também adoece.

*Todos os nomes são fictícios para preservar a imagem dos personagens retratados

A gaita, a família e o João

Fotos: Kaline Barros
Fotos: Kaline Barros

Antes do sol nascer, do galo cantar e dos “mininos” despertarem para irem à escola, João acordava. Pegava seu chapéu, sua enxada e ia “trabaiá” na roça. O homem plantava de tudo naquelas “terras toda”: arroz, feijão, “argodão” e “inté” café.

De vez em quando, João pegava escondido a gaita dele e começava a assoprar algumas músicas que ele mesmo inventava. Era um momento de muito alegria, “inté” os passarinhos cantavam junto de tão alegres que os bichinhos ficavam. Era uma alegria contagiante que só!

João morava no meio do mato, mas não era um homem bestado não, era inteligente e carregava nas mãos, nos ombros, na barriga, nas pernas e nos pés muita valentia. Um dia, até se encontrou com a Mula sem cabeça e colocou a bichinha pra correr. Foi um feito danado!

Ajudou sua “muié” Clarice a criar os oito filhos e que ganharam de presente nomes bonitos que só. Foi Zé Antônio, Bartolomeu, João Batista, Francisco, Luiz Carlos, Adson, Moacir e Aparecida Antonia. Depois que saíram do mato, lá do interior do Paraná, vieram pra “Sum Paulo” e ainda sobrou um tempinho pra fazer mais uma “fiá”, a Clarissa.

Depois dos filhos, vieram os netos e João ficava todo feliz e orgulhoso! De vez em quando, quase sempre e a todo o momento, os netos faziam uma bagunça que só na casa do vô, e João, muito do esperto, sabia o jeito que os acalmaria. Tocava gaita.

Os anos foram passando, as artrites, artroses e outras ites foram aparecendo, mas João continuava firme, forte e valente. Um dia, porém, perdeu a gaita. Não sabia onde havia colocado. Ficou um bom tempo sem tocá-la.

Em uma conversa com Aparecida Antonia, João “recramou” da “farta” que sentia de tocar gaita, não só por causa do instrumento, mas das histórias que ela trazia de volta a ele. Da roça, das “prantações”, dos bichinhos cantando…

No aniversário dele de 85 anos, João recebeu uma caixinha pequena de uma de suas netas.

– Ara, menina. O que é isso?

– Abre, vô! Espero que goste.

Abriu. E lá dentro tinha uma gaita.

– Será que ainda sei como toca?

– Claro que sabe, vô, e se não souber, aprende de novo!

Durante a festa, João não parou de tocar. Alegrou netos, netas, bisnetos, bisnetas, filhos, filhas, os cachorros, os gatos, os vizinhos e até a “muié” Clarice que sempre reclamara daquele som. O que Clarice não sabia é que João tocava em agradecimento a Deus por ser um homem melhor graças à família que tinha. Independente do que teve ou do que não teve na vida, João sempre soube o verdadeiro significado do amor, que é conjugado por meio de suas histórias que, até hoje, impressionam os olhos de sua neta. Que até hoje, me impressionam.

O abc do amor de Khadija

É tarde. O sol já está se pondo próximo aos braços do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, e em uma das inúmeras salas das milhares de casas de Xerém é o silêncio que reina durante alguns segundos. Na televisão está Olga. Olga Benário. No sofá, acompanhando os passos da personagem, estão os olhos arregalados e concentrados de Khadija, que imita cada movimento e que sabe de cor cada fala:

– Se eu cair, eu não vou chorar!

Ao seu lado, está sua mãe Dayse que, imediatamente, posta em sua página no Facebook:

– Khadija está mais uma vez vendo ao filme de Olga. Hoje é um dia bom!

Há alguns anos, Dayse percebeu alguns comportamentos fora do comum em sua filha e achou estranho que com três anos de idade Khadija não havia pronunciado nenhuma palavra. Foi quando decidiu levá-la ao médico e…

– Sinto muito, mãe, mas sua filha tem autismo. Já se prepare, porque as tarefas de ler e escrever serão muito difíceis nessas circunstâncias.

Mas não para Dayse que, depois de alguns anos, colocou Khadija em uma escola especial com o acompanhamento de uma equipe multidisciplinar. Quando chegava em casa, Khadija se sentava com a mãe e juntas realizavam alguns exercícios para o desenvolvimento da escrita.

– Vamos lá, filha… Nós vamos conseguir!

Dayse fazia letras com animais que correspondessem à escrita e, dia após dia, passava três horas fazendo o mesmo exercício. Durante o processo, fez questão de procurar em blogs, palestras e em conselhos de profissionais as milhares de dúvidas que não saiam de sua cabeça. Se não bastasse isso, ainda fez um blog para compartilhar o cotidiano das duas com outras mães e famílias que passavam pela mesma situação.

Até que certo dia, Dayse entrou no quarto e se emocionou. Era como se um filme com todas as consultas médicas com diagnósticos ruins passassem por sua cabeça. Naquele dia, Khadija estava sentada na cama da mãe com uma edição da revista Superinteressante e… lendo. A leitura não era perfeita, mas a menina só tinha seis de idade e conseguiu tamanha façanha depois de um tratamento intensivo de apenas UM mês.

Depois da primeira leitura não parou mais. Seu passatempo predileto até hoje é ler os gibis da Turma da Mônica e o Cebolinha, ah o Cebolinha, é seu personagem favolito. Tem até um boneco em casa! E seu “paidrasto” fez questão de assinar os gibis no nome de Khadija. Ela se sente toda vez que recebe a correspondência! Lê tudinho e se diverte sozinha lendo…

Com 12 anos, ela domina uma linguagem universal e quase que esquecida: a do amor. É com beijos e abraços que pede à Dayse tudo o que deseja, inclusive o filme de Olga, porque mesmo se houver dias ruins, Khadija vai cair, mas não vai chorar.

“Eu tenho autismo. Eu não sou somente “Autista”. O meu autismo é só um aspecto do meu caráter. Não me define como pessoa”.
“Eu tenho autismo. Eu não sou somente Autista. O meu autismo é só um aspecto do meu caráter. Não me define como pessoa” (Autor desconhecido)

Os sapatinhos de cristais de Amanda

O armário da mãe da menina de apenas três de idade não era um portal para Nárnia, mas continha um mundo maravilhoso de sapatos. As prateleiras eram recheadas de variedades de calçados e a pequenina Amanda se interessava por aqueles mais altos. Ela amava brincar de boneca, mas a hora mais divertida era quando pegava os sapatos da mãe e saia desfilando pela casa toda! Era “toc toc” pra cá. “Toc toc” pra lá.

Quando recebia visitas, esperava cada uma delas se sentar no sofá. No momento em que as mulheres cruzaram as pernas e as sandálias ficavam a mostra era o momento de Amanda “atacar”. Ela fazia todas tirarem os sapatos para que pudesse experimentar e ver como ficavam nela.

– Amanda, você está fazendo aquilo de novo? perguntava a mãe de forma brava!

Mas ninguém ligava. Até riam da atitude da menina:

-Imagina! Deixa ela… Está uma graça com essas sandálias maiores que os pés.

A paixão de criança fez com que ela tentasse mais tarde a carreira de modelo e nos cursos de passarela aprendeu, de verdade, a andar de salto alto. Andava de um jeito tão elegante que até mesmo as princesas da Disney morreriam de inveja!

Depois de grande, o salto continuou sendo sua melhor companhia e a intimidade passou a ser tão grande que quando resolve compartilhar os momentos com a outra amiga, a sapatilha, tropeça e cai, algo que nunca fez com o salto!

Ultimamente, os dois dividem uma dupla jornada: de dia vão ao trabalho e a noite, principalmente aos finais de semana, se vestem de Cinderela para divertir e entreter milhares de crianças em suas festas de aniversário. Juntos conseguem levar à todas elas o principal objetivo da magia: tornar incrível o que os adultos banalizaram depois que o sino toca e informa que é meia-noite. Por isso, Amanda nunca desce do salto. Ela sempre será uma eterna criança.

-“Toc toc”…
– A Amanda e seu salto vem aí…

Foto: Kaline Barros
Foto: Kaline Barros

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