Do interiorzão do Paraná, de uma cidade chamada Jaguapitã, a Dona Clarice e Seu João se mudaram com seus oito filhos para a Rua Boiadeiro, no município de Cruzeiro do Oeste, também no estado paranaense. Única menina entre tantos gurizinhos, Aparecida Antonia, mais conhecida como Cida, era pra lá de espevitada e quando não estava atormentando seus irmãos (ou cuidando deles) arranjava formas diferentes de se divertir. Como a família era pobre e as crianças não tinham brinquedo, a pequenina aproveitava os cacos de vidro das louças que espatifavam no chão para brincar.

–  Vamos brincar de caquinho?

Às vezes, partes inteirinhas sobravam dos cacos e os olhos da menina se enchiam de brilho. Quando ela tinha um cabinho de xícara inteiro, nossa! Era uma raridade! Quando tinha uma florzinha então, achava o máximo!

Um dos lugares que Cida mais brincava era no cemitério desativado da cidade. A mãe dela pediu autorização para a prefeitura para poder plantar lá no terreno. E enquanto a mãe plantava as frutas e verduras, a menina brincava próximo a uma árvore giganteeesca!  Quando ajudava a mãe e os irmãos Zé Antônio, Barto e Jango na colheita, a menina levava alguns sustos.

-Mãe, isso aqui é um crânio?

– E isso aqui, mãe? Parece um fêmur… eca!

Quando a noite caia, Cida pegava seus caquinhos e ajudava seus irmãos a carregar as ferramentas do trabalho para casa. A rua era um breu só e na casa onde moravam só tinha lamparina. Eles também não tinham condições de ter água encanada, só havia  um poço para sustentá-los. Mas sempre souberam se virar muito bem com as coisas que tinham.

Assim, a menina continuou disseminando sua humildade para todos ao seu redor e transformando pequenas descobertas em grandes tesouros. Não dizem que filho de peixe, peixinho é?! Há muito dela em mim, afinal, ela é minha mãe e me ensinou que é juntando cacos que boas histórias e boas lembranças são construídas!

Foto: Kaline Barros
Foto: Kaline Barros