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Qual é a sua história?

mês

agosto 2015

A conjugação do amor

Assinado: Do teu pai imperfeito, Wiliam.

É assim que ele costuma assinar as mensagens que publica para seu filho Guilherme, em uma página dedicada a ele no Facebook.

Força, Gui é o que todos costumavam dizer para o ainda menino de 21 anos que lutava, mais uma vez, contra um câncer. Mas Guilherme era forte, não gostava de falar com ninguém sobre a doença e quando perguntavam como estava, só abria um sorriso de ponta a ponta respondendo:

– Estou bem!

Era o filho e melhor amigo de Wiliam. Foi o pai que o ensinou a nadar, a jogar bola, a gostar de música pura e até a difícil tarefa de decorar a tabuada.

Quando foi diagnosticado, seus pais insistiam em falar que…

– Agora tudo será conjugado na primeira pessoa do plural. Nós estamos com câncer. Nós vamos lutar contra ele. E nós vamos vencê-lo!

Enquanto os três (pais e filho) ficavam internados no hospital, a página na rede social era preenchida com mensagens de amor, de orações e de uma esperança nunca ainda vista em um lugar virtual.

Um dia, Wiliam e Guilherme perceberam que muitos parentes das pessoas que ficavam internadas no hospital não tinham onde ficar. Muitos acompanhantes esperavam o tratamento sentados nas calçadas e nas cadeiras das salas de espera. Foi então que os dois tiveram uma ideia:

-Vamos montar um instituto para abrigar, de graça, cada uma dessas pessoas.

Depois de alguns meses, a música de Guilherme estava a ponto de terminar. Ele fez o pai jurar que o projeto sairia do papel…

– Nosso sonho vai virar realidade, filho.

Aquelas seriam as últimas palavras que Gui ouviria antes de descansar.

Com toda a força do mundo, Wiliam compartilhou com todos no “Força Gui” a triste notícia. Não teve um que não se emocionasse com a garra tão grande do pai. Todos, naquele momento, também conjugavam o verbo amar na primeira pessoa do plural.

– Não te tenho aqui fisicamente, meu filho, mas te abraço com o coração e em todas as orações que faço peço para Deus nos proteger até o nosso reencontro. E ah, meu filho! Nosso sonho virou realidade. O Instituto Força Gui já atendeu mais de 150 pessoas e não param de chegar voluntários para nos ajudar. Ainda sou um pai imperfeito, só não fui mais, porque você me ensinou muito. Me ensinou como bem sofrer e como viver com alegria independente de qualquer sofrimento. Nossa música nunca vai parar de tocar. Nós vencemos. Obrigado! Assinado: Do teu pai imperfeito.

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Foto: Arquivo pessoal

O fugitivo do amor

Foi em um casamento de uma amiga em comum que tudo começou. Ela, toda linda e produzida, saiu de casa com o pensamento de que, “se não for hoje, não será nunca mais!”. Ele só pensava em voltar para casa cedo e ficar com os filhos.

Mas antes da história acontecer, outros casamentos tiveram que se desfazer. Meiry era casada e teve um filho, o Guilherme. Josi também. Depois do término do relacionamento, ele teve que assumir uma responsabilidade ainda maior: ser mãe e pai ao mesmo tempo dos filhos Juliany e Josimar Filho, que foram morar com ele.

Os caminhos dos dois se cruzaram em 1999, quando Josimar foi trabalhar na mesma empresa que Meiry. No início, dividiam o mesmo ambiente sem nenhuma pretensão de terem algo. Compartilhavam problemas e soluções do dia a dia como quaisquer outros colegas de escritório.

Até que depois de tentar engatar um relacionamento que não deu certo, Meiry um dia olhou diferente para Josi. Ela sabia que tinham várias coisas em comum e colocou na cabeça que aquele homem seria dela. E a partir daí, começou a árdua luta para conquistá-lo.

Praticamente todos os dias, Meiry chegava perto de Josi e o pedia em namoro. Assim… na maior cara de pau! E ele, tímido que só, apenas sorria e falava que não queria entrar em um relacionamento sério.

O extinto MSN foi prova das investidas de Meiry e das negativas de Josi. Os próprios filhos dele, que já estavam namorando, o incentivavam a encontrar uma pessoa, mas ele tinha receio… muito receio!

Em 2008, na noite do casamento de uma amiga em comum, Meiry chegou, o puxou, o beijou e disse:

– Eu precisava fazer isso!

E ele, então, respondeu…

– Então, fica… Eu te levo pra casa depois.

No dia seguinte, ele já estava na casa dela conhecendo a sogra. Um ano depois, eles já estavam de casamento marcado. Meiry consegue tranquilizar Josi. Com ela não tem tempo ruim. Nunca se preocupou com nenhum problema, porque sabia que juntos iam conseguir resolver. É uma eterna moleca. Josi é o super pai, o super marido, o super tudo. É a vida dela.

Juntos, Meiry, Josi e cada um de seus filhos tornaram-se uma única família, que já deu frutos com o primeiro neto, filho de Juliany. Continuam trabalhando no mesmo ambiente de trabalho e não tem essa de “entre tapas e beijos”, porque o homem fugitivo do amor disse SIM a tempo de ser feliz para sempre com sua eterna namorada.

Josi e Meiry: Eternos namorados
Josi e Meiry: Eternos namorados

Vidas cruzadas

Ela era um ser vivo frágil que passava por “maus bocados”. Ele era um ser vivo frágil e que também passava por “maus bocados”. Ela estava cansada da vida que levava no trabalho, do assédio moral que vivia e do trabalhão que um relacionamento estava dando na época; era tudo muito complicado. Ele estava cansado de ser abandonado e de andar por aí sem destino, também dava um trabalhão danado procurar, toda noite, um lugar para se esconder do frio; era tudo tão solitário. Até que um dia ela se perdeu dela mesmo. Decidiu largar emprego, namorado e resolveu mudar. Até que um dia ele ficou com vontade de andar quilômetros de distância. Decidiu que merecia um lugar, de verdade, para se habitar e resolveu seguir em frente… e em frente… e em frente.

Ela chegou a se perguntar várias vezes, “O que estou fazendo da minha vida?” Ele não conseguia pensar em nada, só andava cada vez mais em frente. Até que, de repente, ela decidiu fazer algo que poderia curá-la de toda aquela angústia. O tratamento não seria realizado por médicos, remédios e muito menos por outros meios alternativos, mas com amor. Com muito amor. Até que, de repente, ele encontrou um lugar que poderia ser a cura para suas dores, já que andou durante muito tempo. O tratamento não seria realizado por médicos, remédios e muito menos por outros meios alternativos, mas com amor. Com muito amor.

O Centro de Controle e de Zoonoses, de São Paulo, foi onde ela resolveu começar seu tratamento. Decidiu ser voluntária e ajudar a cuidar de animais resgatados das ruas, depois de serem abandonados. O Centro de Controle e de Zoonoses, de São Paulo, foi onde ele resolveu ficar para começar seu tratamento. Decidiu ser cachorro e ajudar a cuidar dos seres humanos machucados, depois de abandonarem seus sonhos.

No primeiro dia dela, ela passeou com um vira-lata com conjuntivite, medroso, mas extremamente carinhoso. No primeiro dia dele, ele passeou com uma menina com olhos brilhantes, medrosa, mas extremamente carinhosa. Se apaixonaram. Ela chegou a dizer em voz alta, “Bonitão, você tem cara de Billy”. Ele latiu como forma de aprovação, “Ei, eu gosto de ser chamado de Billy”.

Ela resolveu adotá-lo, mas como a casa que morava em São Paulo era pequena teria que levá-lo para o interior, na casa dos pais. Ele resolveu ser adotado. Estava feliz com a ideia de ter um lar de verdade e iria adorar morar no interior. Só que tinha um problema. Não tinha como levá-lo até lá. O táxi-dog ficaria muito caro; mil reais em apenas uma viagem. Então, ela teve uma ideia. Mandou e-mails para todas as ONG’s protetoras de animais que conhecia pedindo sugestões de como poderia obter a “grana” para levar o Billy até a casa dos pais. Uma das protetoras, Regiane, a presenteou com a rifa de uma cesta e que cesta! Se conseguisse vender tudo poderia levar Billy com o táxi e serem felizes para sempre. Em menos de dez dias, conseguiu vender “tudinho”, mas ainda assim o dinheiro não foi o suficiente.

Enquanto isso, Billy não deixava com que ela, a Juciara, perdesse a esperança. Um dia, ela conversou com um de seus amigos, o Marquinho, e contou sobre a situação. Para alegria de todos, ele falou, “Eu levo vocês. E de graça!”

Quando Juciara chegou na casa dos pais ficou aliviada, finalmente, Billy teria um lar. Quando Billy chegou na casa dos pais de Juciara ficou aliviado, finalmente, ele teria um lar de verdade. Onde Juciara ia, Billy ia atrás. Na cozinha, no quarto, no quintal e até no banheiro. “Billy, isso lá é hora de me seguir?”. Foi a partir daí que Billy ganhou um sobrenome. Era o Billy Chulé!

Como Juciara morava na capital teve que deixar Billy com os pais, mas sempre ia visitá-lo. O tratamento de amor estava fazendo um efeito tão grande, mas tão grande, que ela voltou a trabalhar, estudar e a se sentir muito mais forte. Enquanto ele se recuperava lá, ela se recuperava aqui.

Hoje, ela é um ser vivo forte que passa por bons momentos. Hoje, ele é um ser vivo forte e que também passa por bons momentos. Juntos eles perceberam que nunca estarão sozinhos. Juntos eles souberam que na vida, apesar de tudo, deve-se seguir em frente… e em frente… e em frente!

Juciara e Billy Chulé
Juciara e Billy Chulé

Vamos brincar de caquinhos?

Do interiorzão do Paraná, de uma cidade chamada Jaguapitã, a Dona Clarice e Seu João se mudaram com seus oito filhos para a Rua Boiadeiro, no município de Cruzeiro do Oeste, também no estado paranaense. Única menina entre tantos gurizinhos, Aparecida Antonia, mais conhecida como Cida, era pra lá de espevitada e quando não estava atormentando seus irmãos (ou cuidando deles) arranjava formas diferentes de se divertir. Como a família era pobre e as crianças não tinham brinquedo, a pequenina aproveitava os cacos de vidro das louças que espatifavam no chão para brincar.

–  Vamos brincar de caquinho?

Às vezes, partes inteirinhas sobravam dos cacos e os olhos da menina se enchiam de brilho. Quando ela tinha um cabinho de xícara inteiro, nossa! Era uma raridade! Quando tinha uma florzinha então, achava o máximo!

Um dos lugares que Cida mais brincava era no cemitério desativado da cidade. A mãe dela pediu autorização para a prefeitura para poder plantar lá no terreno. E enquanto a mãe plantava as frutas e verduras, a menina brincava próximo a uma árvore giganteeesca!  Quando ajudava a mãe e os irmãos Zé Antônio, Barto e Jango na colheita, a menina levava alguns sustos.

-Mãe, isso aqui é um crânio?

– E isso aqui, mãe? Parece um fêmur… eca!

Quando a noite caia, Cida pegava seus caquinhos e ajudava seus irmãos a carregar as ferramentas do trabalho para casa. A rua era um breu só e na casa onde moravam só tinha lamparina. Eles também não tinham condições de ter água encanada, só havia  um poço para sustentá-los. Mas sempre souberam se virar muito bem com as coisas que tinham.

Assim, a menina continuou disseminando sua humildade para todos ao seu redor e transformando pequenas descobertas em grandes tesouros. Não dizem que filho de peixe, peixinho é?! Há muito dela em mim, afinal, ela é minha mãe e me ensinou que é juntando cacos que boas histórias e boas lembranças são construídas!

Foto: Kaline Barros
Foto: Kaline Barros

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