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Alugam-se Reticências

Qual é a sua história?

mês

julho 2015

O melhor amigo de Juvenil

O juiz apita e a bola começa a rolar. A quadra pequena do bairro Estoril, em São Bernardo do Campo, é palco de sonhos grandes de gente ainda pequena. São meninos de dez a 12 anos de idade, no máximo, que disputam as melhores jogadas para se chegar ao tão esperado gol. Era ali que Juvenil e seu vizinho Carlinhos costumam passar as tardes. Os dois moravam no bairro há anos, mas somente com as partidas de futebol começaram a conversar e a se conhecerem melhor.

A paixão e a habilidade dos dois pelo esporte eram tantas que não durou muito para disputarem campeonatos por São Paulo. Paralelo a isso, estudavam na mesma escola e eram companheiros das festinhas e gandaias, que os aproximavam cada vez mais.

Um dia, depois de anos e um pouco mais crescidos, os dois estavam a caminho do futebol quando presenciaram uma cena que os marcaria para sempre. Eles estavam aguardando o semáforo abrir, até que uma mulher atravessou na frente de uma kombi sem olhar para os lados. Atrás do veículo, outro carro veio em alta velocidade e não conseguiu frear a tempo, atropelando a pedestre. Carlinhos, então, fez de tudo para ajudá-la, mas infelizmente, não conseguiu e ela acabou morrendo nos braços dele.

Naquele instante, Carlinhos – que prestava concurso para entrar na Polícia Militar – desistiu do curso e acabou mudando de rumo e se tornou bombeiro, pois o sonho dele era salvar vidas… muitas vidas!

Com a vida adulta, foi sobrando cada vez menos espaço para o futebol e menos tempo para se verem, porém quando se encontravam era uma festa só, como se nunca tivessem se separado.

Anos depois, os dois meninos tomaram, mais uma vez, rumos diferentes e acabaram mudando de emprego. Mas não foi só isso que mudou em suas vidas. Certo dia, ao voltar do trabalho, Juvenil atendeu o telefonema de sua cunhada e foi quando o mundo dele desabou pela primeira vez. Carlinhos havia morrido depois de fazer aquilo que ele sempre fez de melhor: salvar vidas.

Depois da ficha cair, o mundo dele quase desabou pela segunda vez. Mas Juvenil sabia que teria que ser forte pelo amigo. Sabia que tinha perdido um herói, mas que, mesmo de longe, seu melhor amigo o acompanharia sempre.

Juvenil e Carlinhos sabiam que o sucesso de uma partida de futebol se dava quando todos os parceiros estivessem bem e que a fé deve persistir mesmo quando a bola for lançada na trave.

Ponta superior esquerda: Carlinhos e meio na parte inferior: Juvenil
Ponta superior esquerda: Carlinhos e meio na parte inferior: Juvenil

As primeiras reticências

As paredes grossas de uma das salas da Maternidade Santa Catarina, na Paulista, não conseguiram abafar o choro estridente de uma menina que, bem na hora do almoço, resolveu dar as caras ao mundo. A mãe – suada, ensanguenta, cheia de dor – a colocou em seus braços, sorriu com os olhos e falou – num tom em que médicos, enfermeiras e todos que estavam ali conseguissem ouvir-:

– Que bostinha de grilo!

Era uma menina de 47 centímetros e 3,300 kg, tão pequena como… uma bostinha de grilo! Mas havia nascido com um nome, escolhido antes, muito antes daquele 23 de Maio de 1991.

Certo dia, Aparecida Antonia (a mãe) passeava pela rua, rumo ao trabalho. De repente, encontrou na calçada um frasco colorido e cheio de flores. Curiosa que só, a mulher não se contentou em ver, mas pegou o recipiente e viu que se tratava, afinal, de um perfume francês. Leu em voz alta e devagar, quase como se quisesse soletrar a palavra:

– KA – LI – NE!

No mesmo instante, sorriu e guardou o nome em sua cabeça. Quando se encontrou com Joaquim (o namorado) contou o ocorrido e disse:

– Eu quero que nossa filha tenha esse nome!

Kaline passou a ser sinônimo de juras de amor, promessas e até pedidos de desculpas:

– Eu te amo tanto quanto amarei Kaline um dia.
– Juro ser um homem melhor em nome da Kaline!
– Me perdoa pelo amor que temos pela Kaline...

Antes de Kaline veio Rafael, com seus pais há 5 anos casados. Aos quatro, Rafa soube que a mãe estava grávida de uma menina que o levou a dar pulos de alegria:

– A Kaline vem aí! A Kaline vem aí.

E veio. Para mostrar que toda história é uma maneira de tornar um momento eterno e que até mesmo uma simples bostinha de grilo pode ser importante para o mundo de alguém. Como todos nós somos!

– Prazer, KA-LI-NE e eu quero contar mais das suas reticências.

Uma das cartas escritas de Joaquim para Aparecida. Ano: 78
1978: Um dos inúmeros cartões de Joaquim enviados para Aparecida

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